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José Leon Machado: Prosa Versificada – I

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«Os nossos poetas escabujam palavras, amontoam-nas, uma lixeira de detritos onde a variedade de colorido, de odores é colossal. Para os compreender, um esforço inaudito pedido à sensibilidade e à inteligência. A mescla de sensações e pensamentos não destoa num poema. O que destoa é não haver sensação nenhuma e o pensamento estar ausente como a água no deserto. Borram-se páginas inteiras de linhas que não significam absolutamente nada. Ou, então, às vezes um verso perdido no fundo da página branca.»

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José Leon Machado: Prosa Versificada – II

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«O agonismo, sendo uma escrita pós-moderna, está para além do pós-modernismo, no sentido de o ter ultrapassado. Num mundo onde todos os caminhos são conhecidos e portanto redundantes como o dialelo escolástico, a linguagem agonista abre um que apenas existe virtualmente, à maneira de um jogo informático em que o jogador vai, em sucessivas tentativas, abatendo monstros e abrindo caminho pelo desconhecido. Este desconhecido revela uma realidade em três dimensões que é, no entanto, outra realidade, mais irregular, onde todos os ângulos se esbatem em curvas de texturas rugosas.»

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José Leon Machado: A Sombra Sorridente

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«Fora agente secreto de Salazar em Luanda. Todas as semanas enviava ao presidente do Conselho um extenso relatório das actividades subversivas dos oficiais do Exército Português. Graças a ele, conseguiram evitar-se conspirações de arrepiar. O seu lema: Destruir os inimigos da pátria. Uns dias após o 25 de Abril, "essa revolução vergonhosa para a nação", foi encarcerado e dado como louco por um médico do MFA. Meteram-no em Rilhafoles à força como se isso fosse paga digna para um cidadão que dedicara toda a sua vida em defesa da terra onde nascera. Graças à família, conseguira transferência para o Telhal, onde era tratado com deferência devido à sua posição. Embora inactivo, afinal continuava a ser inspector da DGS... E tinha a certeza de que, quando o senhor presidente do Conselho recuperasse da queda que sofrera, tudo voltaria à normalidade e esses bandidos do MFA seriam exilados para o Tarrafal.»

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José Leon Machado: Na Ilha de Circe

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«Ficou só, no meio do passeio. Em vez de atravessar para a margem do rio, naquele local coberta com armazéns e barracões, seguiu uma rua cercada de velhos edifícios e foi dar, algumas ruas mais tarde, ao Terreiro do Paço. Esteve cerca de uma hora sentado no cais, ora a olhar a escuridão das águas, ora a estudar a configuração difusa da praça. Desembocava ali a sua vida, ou aquilo que fora até então. Percebia que algo mais estaria para diante, semelhante ao voo de uma gaivota em tempo de chuva. Diáfano o que pressentia e não via nos contornos da luz porque ou cego ou excessivamente apegado ao real que escolhera como estado de ser. As arcadas trouxeram-lhe a dúvida do tempo. Irrepetíveis os instantes, inatingível o que foi, ou a circularidade de uma ilha, do mostrador de um relógio? Não passavam os ponteiros pelos mesmos números doze em doze horas? Talvez o mundo não fosse mais do que uma ilha no universo imenso de estrelas e pulsares.»

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José Leon Machado: O Empreiteiro

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O Empreiteiro é uma colectânea de dez textos dramáticos. No primeiro, que dá o título ao livro, um jovem estudante que fazia uma corrida de manutenção confronta-se verbalmente com um empreiteiro que pretende construir uma fábrica de papel num pinhal. O estudante, com uma forte consciência ecológica, procura dissuadi-lo com vários argumentos. O empreiteiro, muito terra-a-terra, diz-lhe: «Olha, rapaz, vai dar a tua corridinha e não voltes a incomodar-me com filosofias que não enchem a barriga. Tenho muito que fazer. Em vez de andares por aí a defender teorias bonitas e tolas, arranja um emprego e pensa na vida. Faz o que eu te digo e serás feliz.»

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José Leon Machado: A Margem

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«Ao lado do cemitério, descia um caminho de terra em direcção ao rio. O Rocha encaminhou-se para aí e a Sandra acompanhou-o. Ele não levou muito a sério ela ter-lhe metido a mão no braço e o percurso foi ocupado com pequenos ditos inócuos. Em cinco minutos chegaram à margem e sentaram-se num tufo de erva que crescia entre os carvalhos e a água. Foi então que ele lhe pegou na mão, a puxou para si e a beijou. O beijo não foi grande coisa. A rapariga, ou não sabia beijar, ou nunca tinha beijado nenhum rapaz. Apertava os lábios com força num chilreio pouco natural. O Rocha largou-a e pôs-se a olhar o rio com o sol a dar-lhe de oriente em tons de prata.»

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Francisco de Sá de Miranda: Os Estrangeiros

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«Estranhais-me, que bem o vejo: que será? que não será? que entremez é este? Foi grã dita que não apodais já, mas não há-de falecer quem me arremede. Os Portugueses sois assi feitos logo pola primeira, despois dareis o sangue dos braços. Agora parece que me estranham ainda mais. Parece-vos que não diz a fala cos trajos? Esperáveis deles alguns triques troques. Ora me ouvi, dir-vos-ei quem sou, donde venho, e ao que venho. Quanto ao primeiro, sou üa pobre velha estrangeira, o meu nome é Comédia; mas não cuideis que me haveis por isso de comer, porque eu naci em Grécia, e lá me foi posto o nome, por outras razoes que não pertencem a esta vossa língua.»

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José Leon Machado: A Bruxa e o Caldeirão

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A Bruxa e o Caldeirão é uma pequena história que se destina às crianças entre os três e os dez anos de idade. Nela se conta o caso de a uma bruxa se lhe ter furado o caldeirão onde fazia as poções mágicas. Bastante agastada com o percalço, decidiu ir à feira protestar junto do mercador que lho tinha vendido. Mas este há muito que havia falecido e o neto que lhe herdou o negócio recomendou à bruxa que comprasse um novo, pois o velho já estava fora da garantia.

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