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Girão (António Luís Ferreira): Era ele segundo-sargento e aluno de Ciências Militares quando nos encontrámos, em 1844, glosando motes em um abadessado no Porto. Ele e eu puséramos as nossas melhores décimas à disposição inteligente das criadas do mosteiro, às quais os nossos émulos em Apolo, com aristocrático desdém, chamavam «tachos». Estas criadas entendiam-se connosco sobre assuntos métricos, num beco para onde talvez davam as grades da cozinha. Enquanto as velhas filhas de Santa Clara gosmavam motes heróicos para sonetos a Xavier Pacheco, a Nogueira Gandra e a Ferreira Rangel, Girão e eu, no quinchoso escuro e pedregoso, recebíamos colcheias cantadas em vozes frescas, e com os motes uns vinhos velhos, e os conhecidos pastéis da santa. Verdade é que nós também, nas nossas glosas, não revelámos ideia que não fosse um amor honesto acompanhado do peditório de vinho e pastéis. E elas, liberalizando à sede e à gula o que não podiam satisfazer à ternura, delapidavam a garrafeira das amas, descendo em cestinhos as musas liquidas que nós lhes devolvíamos cristalizadas em redondilhas, vazias de conceito como as garrafas.

Foi António Girão o rapaz mais engraçado do seu tempo; e já quando envelhecia, os juvenis sensaborões da geração nova macaqueavam-lhe os gestos para armarem ao riso, se contavam alguma safada anedota. Houve tempo em que os sócios do Clube Portuense falavam quase todos com os trejeitos de Girão. Eram detestáveis até provocarem na gente o carniceiro apetite de os apunhalar.

A graça de Girão não era a das anedotas: era a sua. Quando engatilhava os beiços para disparar o chiste, já o auditório, para se rir, o dispensava de rematar o conto.

Evaristo Basto, primeiro folhetinista do seu tempo, Girão, o actual visconde de Benalcanfor e eu tínhamos dias assinalados, há vinte e quatro anos, de jantar no Reimão, na taberna de um maneta que levou deste mundo o segredo da boa pescada com cebolas. Eram uns jantares que eu chamaria girândolas de espírito, se não fossem também de linguados fritos. Se, quando, depois, os quatro entravamos no Café Guichard, entrasse Garrett connosco, ele, conforme à sua teoria de ajuizar das terras pelos botequins, diria: «Estou em Paris.»

Até dos Brasileiros gordos extraiamos ditos finos, se de mexilhões se pudessem tirar pérolas.

Esta vida assim não podia durar. Girão tinha grande aptidão científica, ambições grandes de saber e de nenhuns bens da fortuna. Foi deputado e professor. Estudou muito e de afogadilho, com justificado aproveitamento. Afadigou-se para recuperar os desperdícios dos anos académicos, vividos na descuidada alegria daquela inteligente e doida Coimbra de Ricardo Guimarães, de Santos Silva, de Carlos Ramires Coutinho e Silva Gaio. Era ainda assim estudante notável, fazia as maravilhas do talento; mas parecia tratar as ciências naturais como os fidalgos da sua raça, doutores em agricultura que têm de olho os progressos da terra pela beterraba, e pedem conselho aos seus caseiros para plantarem couves lombardas. Escreveu livros de ciência, folhetos humoristas, poemetos sãos da graça antiga remoçada nas parvulezas contemporâneas.

Eu raras vezes o vi no lapso de doze anos; quando, porém, nos encontrávamos, dizíamos palavras tristes. Era a saudade: tínhamos vivido.

Eu soube um dia que António Girão chegara enfermo a uma hospedaria perto desta aldeia. Fui vê-lo. A minha presença afligiu-o.

– Estou moribundo – disse ele.

Ofereceu-me gelo com que refrigerava os beiços carbonizados. Disse-me com a voz já presa que se estava vendo e sentindo morrer; que assistia à dissolução da vida como se visse em si uma retorta num laboratório. E concluiu:

– Tomara eu isto acabado!

Expirou no dia seguinte, 2 de Agosto de 1876, na hospedaria de Vila Nova de Famalicão.

Dizem-me que até ao fim discutira com o médico, com o amigo extremoso que lhe assistira, com o irmão que o adorava e consigo mesmo os transes angustiosos que se deram naquela horrente batalha entre a vida e a destruição. Teve o trespasse dum justo e dum sábio. Como epílogo amargo de trinta anos de incansável estudo, nos seus três últimos dias observava o processo da morte, e rejeitava esperanças e lástimas banais.

Camilo Castelo Branco



VIVA O PROGRESSO!

Quando nas noites de cruéis insónias,
Papoilas colho pela nossa história
Nos feitos nunca feitos dos antigos,
Patetas tais lamento. – De que serve
O puro amor da Pátria não movido
Por luzente metal, mas alto, e grátis?
Que lucraram Cabrais, e os Albuquerques,
Em Diu os Castros, no Oriente os Gamas,
Senão morrer de fome, e andar às moscas?
Felizmente vai longe o tempo estulto
De ideias carunchosas d’honra e brio,
Que faziam girar estes e outros
Por solidões de nunca vistos mundos.
E houve quem louvasse estas carreiras,
Quem cantasse os heróis, e os descrevesse?
E há, oh, caso raro!, inda hoje em dia
Quem Andrade e Barros saboreie?
Eu por mim quando os leio o sono é certo.
De que livra saber que o Sol nascendo
No berço viu as lusitanas quinas;
Ou que iroso Neptuno escoucinhando
No mar se divertiu cos Palinuros?
Sempre nossos avós eram bem asnos
Em achar graça a ninharias destas!
Que delírio fatal deu causa a tanto?
Que modo de julgar o mundo e homens
Tão outros do que são como hoje os vemos
À luz etérea do imortal progresso!
O tal Gama que fez (haja franqueza)
Para ser cantado por Camões, o torto,
Num poema sem fim de insulsas trovas?
Fez ele porventura à pátria amada
Presente dalgum gás de novo invento?
Roubou por lá dinheiro aos Hotentotes?
Vendeu porção de terra aos estrangeiros
Pra melhor se arranjar quando voltasse?
Mas nada!... qual história!... o caso é outro,
Fez... (modernos barões, morrei de riso!)
Fez conhecido o lusitano nome!
Em vez de tanta glória, o barbas-d’alho
Dentuças d’elefante antes trouxesse,
Que servem pra marfim, pimenta, e cravo,
Como fazem por aí nos nossos dias.
Estes, sim, são heróis, pintos arranjam
Por finos estampados papelinhos,
Ou inocentes traficando em negros .
A honra, a probidade, a fama, a glória,
E que tais palavrões é fumo, é nada.
Quem troca por loureiros pão d’Avintes,
Ou tostados biscoitos? – E inda há parvos
Pregando sabichões que ter virtudes
É melhor capital do que ter loiras!
Viu-se sandice igual?! – O rumo é outro,
É pé-leve, mão pilha, e ser maroto,
Que esperto quer dizer, pois são sinónimos,
Na do progresso singular linguagem.
Que tempo tão feliz – que século d’oiro!

Salve, progresso tutelar e amigo,
Que o fel adoças, que os espinhos cortas
Do val que foi de pranto, e hoje é de rosas!

Nem tu, sexo gentil, ficaste isento
Desta moda seguir. – (Pasmai, vindouros,
Do lume vivo das modernas luzes!)
As Marílias cruéis têm vindo ao rego
A honra desprezando, inútil freio
Não posto às más paixões, posto à fortuna.
Isto, sim, que é pensar, ah! que inocência,
Que formosura ingénua e recatada
Ganhou por isso a vida! Avante, belas!
Que o viver é gozar, e os fins são tudo.
Teatros, o vestido, o baile e a festa,
Dinheiro custam, não se dão de graça.

Amor, essa paixão que aos próprios deuses
Faria tresloucar, e andar em brasa,
Está posta em leilão, a lanço em praça.
Ó tempos, ó costumes semibárbaros,
Em que amar era andar atrás das moças
A chorar, a grunhir e a fazer versos;
Ou ir de ponto em branco, mata-moiros,
Deixar-se esquartejar por dama ingrata!
As nossas vestais hoje, em vendo as c’roas,
Rendido o coração, dão corpo e alma.
Os tolos Quixotões desconheceram
Que a mulher é mulher; e o oiro é tudo.
Mas isto é pouco ainda, ‘inda devemos
Mais ao progresso que eu adoro, e sigo.
Era dantes mulher traste de luxo
Sem valer um ceitil, cinco réis cegos;
Hoje há pai que põe preço à própria filha,
Marido que hipoteca a linda esposa,
E quem por um cavalo ou por dez libras
A ditoso rival a amada entregue.
Que moda tão feliz, se o preço abaixa!

Progresso, salve, tutelar e amigo,
Que o fel adoças, que os espinhos cortas
De vai que foi de pranto, e hoje é de rosas!



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