Ivo
Machado nasceu nos Açores em 1958. Ainda estudante do liceu
revela-se como poeta em páginas académicas mas seria no
jornal A UNIÃO de Angra do Heroísmo que, em
Março de 1977, viria a público o primeiro trabalho
digno de registo. Tem participado com regularidade em diversos
encontros de escritores, destacando-se — Correntes
d’Escritas, Portugal; Salón del Libro
Ibero-Americano de Gijón, Espanha; Cammino delle
Comete, Itália, e Festival Internacional de Poesia de
Sarajevo, Bósnia-Herzegovina. Tem feito leituras dos seus
poemas em vários países, como Espanha, Itália,
Estados Unidos, Bósnia-Herzegovina, Uruguay e Brasil. Parte da
sua poesia está traduzida para castelhano, inglês,
eslovaco, húngaro, italiano e bósnio. Tem colaboração
dispersa por revistas literárias no país e estrangeiro,
estando ainda representado em inúmeras antologias. Do primeiro
livro, Fernando Lopes-Graça, musicou para canto lírico
sete poemas a que chamou — Sete Breves Canções
do Mar dos Açores. Em 1987 deixou as ilhas (onde
ciclicamente regressa) para viver no Porto.
Publicou: Alguns Anos de Pastor, poesia, 1981; Três
Variações de um Sonho, poesia, 1995; O Homem que
nunca existiu, teatro, 1997; Cinco Cantos com Lorca e Outros
Poemas, poesia, 1998 (homenagem particular ao poeta de Granada,
tendo sido convidado a apresentar o livro naquela cidade andaluza
durante as comemorações do centenário do
nascimento de Garcia Lorca e, em Fevereiro de 2002, traduzido e
editado naquele país numa edição bilingue, pela
LITERASTUR); Nunca Outros Olhos Seus Olhos Viram, novela,
1998; Adágios de Benquerença, poesia, 2001; Os
Limos do Verbo, poesia, 2005; Verbo Possível,
poesia, 2006. Ainda em 2006, publica Poemas Fora de Casa,
antologia que reúne a sua poesia, celebrando assim os vinte e
cinco anos da publicação de Alguns Anos de Pastor,
seu primeiro livro.
ALGUNS
POEMAS
CASA
Das
casas sobram sempre lamentos,
a languidez do amor nos
rios dum lençol, a mão
disforme nos lábios
húmidos duma palavra;
das casas restam sempre
nomes, vozes
das casas cresce uma alma
que esmaga o tecto
minúsculo das mariposas
do Verão; das
casas sempre um cheiro de nascer;
das casas sempre o roçar
das asas da morte.
Nascer e morrer na mesma
casa é privilégio,
sabedoria, ou sublime
instante de passagem,
apenas.
MONTEVIDEO,
28 de Janeiro de 2006
(inédito)
BÓSFORO
Um
dia minha âncora erguer-se-á dum porto qualquer,
e
nesse instante o horizonte entrará num frenesim.
Os
mármores diluir-se-ão sob as águas indefinidas
como
na travessia entre Eminönü e Üsküdar, a luz
se
dilui
no
espelho do alvorecer dos minaretes de Istambul
Corrido
o mar chega o silêncio. A distância amarra,
e
mergulho num sotaque de transterrado.
Aos
vapores na correria entre dois mundos
entrego
o lirismo da minha língua — este sabor
a
enxofre dos caranguejos das ilhas,
para
que ela se dilua na água de cobre do entardecer.
ISTAMBUL,
1 de Maio de 2006
(inédito)
DIVAGAÇÃO
Quando
morrer
quero
correr o mundo. Nas primeiras horas
desse
lusco-fusco, colocarei a última pedra
na
estrada que minha mãe rasgou no mapa
acenado
por meu pai em terra desbastada.
Depois
começarei a viajar. Começarei por Paris.
Não
perguntem porquê Paris. Quem sabe,
pela
erudição dos mendigos
a
celebrar os seus excessos
Quando
morrer
quero
conferenciar com Deus. Na primeira
aula
de catequese instalou-se a ideia
que
Deus era um relógio igual ao de Brooklyn
existente
na casa dos meus avós.
Era
perfeito, infalível o relógio
manufactured
by the Ansonia Clock Company.
Não
por ser americano ou pertencer à família,
mas
porque mediava a história do mundo interior,
mais
a crença naqueles que não se escondem
para
morrer; e no exterior em mutação
padecendo
de amnésia.
Um
dia o relógio avariou, deixei de crer em Deus.
Quando
morrer
quero
dizer a Ele tudo isto, até O convidarei
a
viajar comigo. Quem sabe, não iremos a Brooklyn
falar
com os donos da Ansonia Clock Company
para
um certo de contas
e
clarificação de dúvidas.
SARAJEVO,
14 de Outubro de 2006
(inédito)
(reprodução autorizada pelo autor)