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Os Incompatíveis
de José Leon Machado
Texto de apresentação
Sobrepondo-se a um mundo aborrecido, certo, monótono,
submerso em poeirenta rotina, no qual a relações entre o homem e a mulher
parecem reger-se pelo anátema da incompatibilidade, surgem-nos, nos contos de Os
Incompatíveis, de José Leon Machado, os traços que delineiam o mundo de
aparente compatibilidade das transgressões emocionais e eróticas que rondam a
vida humana e nela, por vezes, se imiscuem.
Ao longo dos dezanove contos que constituem o livro, o
gume da transgressão abala a rede estável da economia doméstica, dos grupos de
amigos, dos locais de trabalho, das aldeias e cidades povoados por homens e
mulheres, maridos, esposas, pais, filhos, adultos, adolescentes e crianças. O
modelo triangular ou quadrangular da traição risca o sossego do quotidiano com
um traço rápido de intromissão sem contemplações. Um rasto de erotismo ou um
aceno de sensualidade fazem perigar a quietude monótona do dia-a-dia das
personagens, apontando a evidência da incompatibilidade caseira subjacente e
despertando sensações até aí quietas e adormecidas.
Por vezes, um simples pormenor é suficiente para
despoletar a dialogia inicial do conto ou para surpreender o leitor com o seu
desenlace: umas botas de cano alto, um telemóvel, uma pulseira ou um vestido de
seda preto, podem ser pontos de partida ou de chegada, podem funcionar na
narrativa como ponto de equilíbrio ou de desequilíbrio entre a compatibilidade
e a incompatibilidade.
José Leon Machado domina com hábil mestria a
tradicional técnica do final-surpresa (à boa maneira de um Maupassant, por
exemplo) apresentando-nos em todos os contos um desfecho inesperado, moderno
pelo inusitado das situação, actualizado pela leveza clara da linguagem e pela
pena certeira de quem é, sem dúvida, um genuíno contador de histórias ou, como
sintetizou Vargas Llosa no título de um dos seus livros, de quem domina a arte
de Como se cuenta um cuento.
A «comédia humana» d´ Os incompatíveis disseca
com subtil e aparente superficialidade uma realidade muito mais séria e profunda
porque nos seus contos as dicotomias opositivas do bem e do mal, do bom e do
mau, do certo e do errado, do grotesco e do belo, da sensualidade e da
sexualidade, do empenho e da indiferença, da artimanha e do sonho, se anulam e
se desfazem na ausência de julgamento de um sorriso. É por isso que o leitor
que acaba de ler um qualquer dos contos de Os Incompatíveis não pode
deixar de sorrir: sorrir quase num riso aberto; sorrir na continuidade do
pensar; sorrir com leve comoção, sorrir com emoção; ou, muito simplesmente,
apenas deixar-se sorrir e repetir para si próprio uma das frases do conto
«Música para o alto», que bem poderia ter servido de epígrafe ao livro:
«Acontece, porém, que, escrevendo Deus
direito por linhas tortas, ainda hoje se não compreende como foi Ele por linhas
direitas escrever torto» (p.138)
Ana Margarida Falcão, Funchal, 9 de Maio de 2002.
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